A Importância do Treinamento de Força no Esporte
O treinamento de força, apesar de sua importância comprovada, frequentemente é deixado de lado na preparação de atletas, especialmente em esportes coletivos. Vários fatores contribuem para essa negligência, e entender esses pontos pode ajudar a reverter essa tendência.
Gustavo Api
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Por que o treinamento de força é negligenciado no esporte?
A prática do treinamento de força para o esporte continua sendo um tema de diversas especulações no treinamento esportivo de modalidades individuais e coletivas. Com isso, existe a adoção de novas práticas que tentam "substituir" o treinamento de força por outras atividades de mais fácil aceitação, que por sua vez não produz benefícios claros. Contudo, alguns fatores contribuem para a negligência da prática do treinamento de força em atletas de formação ou alto rendimento.
Uma das percepções errôneas é a associação do treinamento de força com atletas pesados e lentos. Muitas vezes, o foco em aumentar a força é visto como algo que pode comprometer a agilidade e a velocidade, levando a uma resistência em adotar programas de treinamento de força. No entanto, essa visão ignora o fato de que a força bem desenvolvida pode, na verdade, melhorar a performance atlética. Sem dúvidas, o treinamento deve ser adequado ao contexto da modalidade esportiva, não sendo uma replicação de exercícios resistidos igual aos treino de fisiculturistas, para os quais o objetivo é ganhar mais massa e volume muscular independente de se realizar uma tarefa com velocidade, como por exemplo um tiro de velocidade ou um salto para atacar uma bola. Tudo depende do contexto!
A partir deste argumento, outro fator parte da crença de que os movimentos realizados durante o treinamento de força não são "funcionais" para o esporte específico em questão. Essa visão se baseia na ideia de que os atletas devem treinar exatamente como jogam. No entanto, muitos exercícios de força, mesmo que não sejam específicos, podem transferir para o desempenho no ambiente esportivo. Isso é suportado por pesquisas que mostram que um maior nível de força está associado a uma melhora nas características de força-tempo, com um aumento na aceleração e velocidade de deslocamento, que são essenciais para o desempenho atlético (Suchomel et al., 2016).
Os treinos de força podem causar um desgaste considerável, com dor muscular e fadiga associadas. Este fator pode desmotivar os atletas e treinadores a incluir o treinamento de força em suas rotinas. A falta de tempo também é uma preocupação, especialmente em esportes onde o calendário é apertado e as demandas de treinamento são elevadas. Contudo, existem métodos de treinamento que tem como intuito minimizar a fadiga e dor muscular (Api et al. 2023), e ainda promover um maior desempenho para as sessões de treinamento em sequência
A Importância do Treinamento de Força
As evidências já são claras e mostram que programas de treinamento de força devem ser uma parte integral da preparação atlética em diversos esportes, individuais ou coletivos. Atletas mais fortes conseguem suportar cargas de treino maiores e apresentam um risco reduzido de lesões (Malone et al., 2019). Jogadores mais fortes são capazes de atenuar altos impactos em desacelerações, resultando em menor estresse mecânico e dano tecidual (Harper et al., 2021). Ou seja, com a adoção de programas de treinamento de força, os atletas se tornam mais consistentes e podem treinar em mais alto nível estando sujeito a menos dias parados por lesões, aumentando sua frequência de treinos e consequentemente o seu desempenho!
O treinamento de força não apenas melhora a capacidade de suportar cargas, mas também aumenta a produção de força muscular através de mudanças no tipo de fibra muscular, maior ativação muscular e melhor desenvolvimento na taxa de produção de força, ou seja a produção e aplicação de força no menor tempo possível. Atletas mais fortes e potentes se saem melhor em tarefas que exigem velocidade, saltos e mudanças de direção. Por exemplo, a mudança de direção (componente da agilidade) é fortemente influenciada pela força excêntrica dos isquiotibiais durante a fase de desaceleração. O agachamento, por outro lado, produz força verticalmente (saltos para ataque e bloqueio no voleibol, ou para rebotes e enterradas no basquetebol), enquanto para ações que necessitam de maior agilidade, é requerida uma combinação de aceleração e desaceleração em direções verticais e horizontais (Freitas et al., 2021). Para isso uma seleção adequada dos meios e métodos de treinamento são imprescindíveis para que se possam produzir resultados mais expressivos.
O treinamento de força deve ser visto como uma ferramenta essencial na preparação de atletas, não apenas para melhorar o desempenho, mas também para reduzir o risco de lesões e aumentar a resiliência física. É fundamental que treinadores e atletas reavaliem suas abordagens, incorporando o treinamento de força de forma estratégica em seus programas de treinamento. Com isso, os atletas poderão atingir seu potencial máximo e se destacar em suas modalidades esportivas.
Referências
Suchomel, T. J., Nimphius, S., & Stone, M. H. (2016). The Importance of Muscular Strength in Athletic Performance. Sports Medicine, 46(10), 1419-1436.
Api, G., Legnani, R. F. dos S., Foschiera, D. B., Clemente, F. M., & Legnani, E. (2023). Influence of Cluster Sets on Mechanical and Perceptual Variables in Adolescent Athletes. International Journal of Environmental Research and Public Health, 20(4), 2810.
Malone, S., Hughes, B., Doran, D. A., Collins, K., & Gabbett, T. J. (2018). Can the workload–injury relationship be moderated by improved strength, speed and repeated-sprint qualities? Journal of Science and Medicine in Sport, 21(1), 85-89
Harper, D. J., Jordan, M. J., & Kiely, J. (2021). Relationships Between Eccentric and Concentric Knee Strength Capacities and Maximal Linear Deceleration Ability in Male Academy Soccer Players. Sports Medicine, 51(1), 177-188.
Freitas, T. T., Pereira, L. A., Alcaraz, P. E., Arruda, A. F. S., Guerriero, A., Azevedo, P. H. S. M., & Loturco, I. (2021). Influence of Strength and Power Capacity on Change of Direction Speed and Deficit in Elite Team-Sport Athletes. Journal of Strength and Conditioning Research, 35(11), 3170-3176.


